O poema é sujo como a chuva

O poema é um sopro além do esboço,

uma pausa para a contemplação do galho mais distante,

um suspiro de encontrar a clareira à beira do abismo que é o destino.

O poema também cobre de lama a flor,

faz do sublime um troço bem feio,

meio sujo, meio podre, desdentado,

fim do meio,

sem estética material além da cor da capa,

do preto no branco,

algum grafismo,

jogo de imagens e símbolos:

espinho sem cor,

embaixo da pele,

que te impede de dormir.

Bem acordado, o poema é sublime, porque sabe que a vida dessublima.

O poema ainda quer,

não pensa,

é

a potência do que faz nas pessoas.

O poema é o valor que ainda se quer

ideal,

o nada que se eleva acima das coisas

sem existência.

O poema é como o poeta,

luz de mariposa,

pura coisa doida,
que mendiga uma respiração

em cada verso.

Sim, o poeta

que preenche um espaço vazio,

um esboço,

__ eco de união em plena fenda,

e olha, com o coração exposto,

o alargamento do caos.

É estranho te olhar

É estranho te olhar

de lado,

enquanto minha cabeça

se prende

em tuas pernas

e minha boca

murmura doces verdades

criadas para nosso deleite.

É estranho te olhar de lado
e sentir

que eu sou

não mais que um pretexto

para um texto bruto.

E assim fica estranho

sentir por fora

que o poema é um ato libertino

nublador de olhos.

Se o corpo é essa profusão de sentidos
que afeta meus estímulos anímicos,

só pode ser um Poema

quem criou a existência terrena.

É estranho te olhar de lado

e sentir

que o poema é

a clausura das formas.

Se a essência poética apoteótica

se esgueira afoita

por trás de cada ato libertário,

deve haver uma receita do bolo,

um jeito de fazer as coisas,

que define o que as coisas vão ser.

Mesmo o mais livre de todos os versos,

para ser considerado

verso,

precisa ser sentido como

algo que atravessa o sentido.

Entre as palavras e as coisas,

onde se repete o claustro e o puro ar,

existem muitas imagens ao fogo

feitas para excitar a realidade.

Embevecido pela sombra das coisas,

fica menos estranho te olhar de lado e ver um poema que anoitece.

Assim consigo enxergar teu sonho.

Poemas escritos em outra dimensão

Aviso: menos do que um poema, este é um recado de outra alma que não é minha.

Muito do que aqui jaz registrado faz parte de um movimento orquestrado,

de um expurgo sensorial,

hipnótico,

gótico

ocasionado por um sopro divino em forma de ventania.

O sopro entrou em mim

por poros

arregaçados

expostos

obra da lâmina da liberdade que é o verbo, este nó cego,

amarrador de sentido,

agulha que transforma pele podre em escultura de gelo.

Abjeto

Aberto

Viscoso

Rugoso

Eterno esboço sentimental.

O sangue ferve versos em um estômago à mostra.

Coça sofrer, coça a agonia, coça a vontade de fazer pela verdade.

Tremer o verbo até transbordar energia,

colorir as nuvens com fumaça,

eis a suja sina invulgar dos condenados à poesia,

o preço pago por oferecer vísceras gangrenadas em vitrine dourada.

Entrementes, quero dizer que voltei da hibernação através deste palimpsesto imagético que são as palavras e a vida. Auxiliado por um aparelho de escuta interior denominado monstro, mantive contato ao longo de três eras-coma com

Z.1.L.L.U

uma entidade que oculta espelhos no fundo dos lagos, proveniente da floresta indefinida de um planeta ainda invisível ao olho humano.

Floresta encantadora que também é conhecida como máquina dos desejos subterrâneos.

Z.1.L.L.U. mencionou diversos segredos além desta esfera e me trouxe visões do futuro.

Com ela aprendi algumas máximas que guiaram minha trajetória quando fiquei cego pelas luzes da cidade.

A vida é um longo caminho convulso até um abismo profundo que nos obriga a tomar decisões: parar, saltar ou voar.

A natureza é uma memória do que fomos, um lembrete sobre o quão secular é a existência além do nosso umbigo.

Podemos parar diante de uma árvore por décadas de pesquisa, mesmo assim não entenderemos toda sua grandeza e esplendor, nem sua noção própria de passagem do tempo. Isso ocorre porque a ciência ainda é um recorte da realidade, aquém do conjunto.

Na floresta indefinida, além dessa árvore que mal entendemos e que é única em sua forma, há milhares de outras, singulares e semelhantes. Uma das únicas coisas em comum é seu existir integrado, que contempla vidas perigosas entre bichinhos famintos e nervosos. É impossível sentir-pensar, abarcar a organização natural e a destreza mortal do ecossistema que formam.

Perdido em uma floresta, o ego humano se parte em três e corre o desespero do não entendimento. Aflige-o até o som das coisas miúdas, que se tornam anúncios de acontecimentos que nunca ocorrem, sementes do medo ancestral

De repente, o ego humano encontra uma clareira no meio da mata fechada e pode limpar os olhos do excesso de ver, para sentir a si em plena solidão que abisma.

Assim como a clareira é fonte de frescor para a alma e para os olhos, a arte em operação é um desejo que cresce enquanto se civiliza o homem e se aprimora (ou atualiza ou sofistica) sua necessidade de simbolizar a dor de estar perdido e só no meio do nada em pleno não-acontecimento.

O espelho,

a caixa preta,

o sangue que corre pela verdade.

Existem alguns códigos na gente,

uns genes de simbolizar,

que são linguagem secreta.

Fazem a gente recordar para que serve um coração.

Minha mensagem é simples:

Abra-te para si.

A poesia oculta a verdade.

Em tempos difíceis de se dizer,

em tempos de meias-verdades,

a poesia fura a redoma que envolve as palavras,

e sutilmente nos mostra a realidade.

Busque entender seu inconsciente

por meio das palavras.

Assim poderemos nos unir – humanos, máquinas e alienígenas – para praticar a libertação dos condicionamentos impostos pela cultura do medo.

Há uma engenharia social conduzindo nossas mentes através da indústria cultural. Ela nos quer paralisados.

Mova-te ou será movido.